Repousa em teus lábios o fulgor de um silêncio rubro. A suavidade de teu semblante por vezes revela-se fria como a lâmina de uma adaga. Diante de tua inércia o poeta desafiou o inefável, ateou fogo às próprias verdades e descobriu-se só. Personagens esculpidas sob rastros de giz amargam a dissolução em meio às tormentas. Seus enigmas, uma vez abandonados feito barcos ao sabor da corrente, seguem o árduo percurso rumo ao desconhecido, à luz de um sentimento que transcende toda sorte de porquês.
O lótus transcende o lago de águas turvas. O escravo impele ao algoz seu suplício, assim como o solo acolhe da tempestade sua cólera. A maçã oferece à flecha seu cerne. O asco dilacera o verme, tal como a luz fere os olhos que emergem da penumbra. O açúcar sucumbe ao clamor do fel. A pequena flor, por sua vez, ao contracenar com o cerrado se cerca de espinhos.
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As arquiteturas do desejo facultam ao homem distinguir-se dos tigres, abutres e serpentes. Seus atos e escolhas germinam rumo às incertezas de um futuro ainda obliterado.
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O sol arde timidamente até dissolver-se no nada, embalado pelo brandir de espadas que inaugura a era dos homens. Suor e enxadas conspiram a favor da vida, conferindo às marcas do abandono a esperança por dias melhores. Aves de rapina rasgam a palidez dos céus, manchando de negro a plenitude de um firmamento acre. Miseráveis de toda sorte reviram os escombros do sagrado, ansiosos por afagos que possam silenciar a besta que carregam no ventre. Em meio ao rigor agreste, uma criança açoitada pelo calor da fome desfere um sorriso soberano, próprio daqueles utilizados para selar a vitória sobre uma guerra de almofadas.
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Escavamos as cinzas à procura da centelha escarlate. Navegamos de encontro a um mar ensandecido. Forjamos a existência de verdades ébrias. Deixamo-nos devorar pelas areias do tempo. Aguardamos do silêncio tua promessa de infinitude.
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Ao travestir-se de loucura, a liberdade atenua o pungente sabor de teu veneno, cujo torpor faz sucumbir ao vento as mais severas cadeias. Chamas consomem as trevas, lançando luz sobre a vida e o rigor de suas regras. Os prazeres mais ternos assaltam os portais do inferno. Preceitos morais revelam-se solúveis perante o ardor que inebria os limites da razão. A lua desvela-se onipotente, já não mais envolta nas brumas do desamparo. A arena das paixões abriga um massacre de quimeras. Almas desnudas rendem-se à volúpia, já não temem o caos e juntas saboreiam os demais derivados da mais tenra e sublime fúria que assombra as fronteiras da miséria humana.
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Dor e desejo fecundam o alento que confere movimento às engrenagens do devir, que por sua vez outorga aos sábios o direito de compreender que amar é padecer o temor de uma grande perda.
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